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“O colonialismo é um ferida que nunca foi tratada. Uma ferida que dói sempre. Por vezes infecta. E outras vezes sangra”

Estudo de obra da autora negra Grada Kilomba inicia o projeto de Extensão do IFTM “Escurecendo o pensamento"

  • Por IFTM Campus Uberlândia
  • Publicado em 27/04/2021 às 12:00
  • Última modificação 04/05/2021 às 08:51
Capa do livro
Capa do livro "Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano", de Grada Kilomba
Crédito: Divulgação

Ao longo do último dia 16, em torno de 77 inscritos de diversas instituições do país participaram do 1º fórum de discussão do projeto de Extensão “Escurecendo o pensamento” do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro (IFTM) por meio da plataforma Google Classroom.

Com o objetivo de promover educação antirracista por meio de implementação da lei nº 10639/2003, que obriga incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a temática "História e Cultura Afro-Brasileira”, o projeto consiste em estudo e análise de obras de autoria negra.

Para o primeiro encontro, os participantes leram anteriormente 2 capítulos do livro Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano, de Grada Kilomba, intelectual negra, psicóloga, filósofa, escritora e artista plástica, nascida em Portugal e de origem familiar nas ilhas de São Tomé e Príncipe e em Angola.

Talita Lucas Belizário, presidente do NEABI do IFTM Campus Uberlândia e uma das idealizadoras do projeto, explica que a escolha de Grada Kilomba para inaugurar esse projeto de Extensão inédito no IFTM deu-se em razão de a autora possuir um discurso potente “que nos possibilita desconstruir e construir novas epistemologias e sermos sujeitos da nossa própria história. Quando fraturas e traumas sofridos ao longo de séculos pela população negra são ratificados no contexto político atual por meio de uma política genocida de corpos e identidades diaspóricas, ler Grada Kilomba é uma convocação a revisarmos nossa existência”.

Na perspectiva de se trabalhar para a construção de um currículo intercultural e pluriversal no âmbito do IFTM, foram discutidos os capítulos "Carta à autoria da edição brasileira" e "Tornando-se sujeito", que possibilitaram inúmeras e enriquecedoras reflexões, com problematização de temas que estão no centro de debates do contexto acadêmico, dentre as quais destacamos:

"[...] escrever não é um ato neutro, indiferente ou sem história. A escrita é parte dessa responsabilização porque rompe com a falsa premissa de que a letra é separada do corpo." (Ana Carolina Gomes Araújo, IFTM Campus Ituiutaba).

"[...] Parece-me que não há nada mais urgente do que começarmos a criar uma nova linguagem. Um vocabulário no qual nos possamos todas/xs/os encontrar, na condição humana. Partindo disso, dentre as várias expressões racistas usadas, cito a palavra ‘denegrir’, uma palavra largamente e indiscriminadamente usada por várias pessoas e que me traz certo desconforto. Segundo o dicionário Aurélio, a palavra ‘denegrir’ é definida por ‘tornar negro, escurecer’, associado a um figurado ruim, a ‘manchar a reputação; difamar: os boatos denegriram a imagem da empresa; ele se denegriu com o escândalo de corrupção’. É importante apontar o racismo escondido nas palavras e desassociar o termo de seu significado racista, construído com a mesma raiz da palavra negro." (Bianca Oliveira, IFTM Campus Uberlândia)

"Grada Kilomba tece uma narrativa muito interessante para investigar a ação do racismo e a legitimação do patriarcado. Em sua obra, a autora justifica que a falta de discussões acerca de termos que provém de uma época colonial servem para reafirmar as estruturas da mesma época. Assim, se se continua a chamar de ‘mulata/o’ pessoas de pele negra, remontando-se à uma designação ofensiva de época colonial, reafirmam-se tais valores. A língua em si já é uma validação. A importância de discutir os termos provém da ‘normalização’ que a língua carrega em si: se há termo para o sujeito/objeto, é porque este é reconhecido dentro da sociedade; se não o há, então ele não o é." (Isabelle Merlini, Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP)

"De acordo com Kilomba, a língua portuguesa é arraigada de terminologias que são resquícios da colonização, da escravatura e da sociedade patriarcal. No entanto, esses termos continuam em uso de forma que legaliza o racismo, pois palavras como ‘mulato’, ‘mestiço’, entre outras, afirmam a inferioridade de uma identidade, seja ela de raça e/ou gênero, pois, também mantém o homem em uma situação de poder em não considerar a linguagem de gênero." (Stella Santana, Prefeitura Municipal de Uberlândia).

“Durante este período de pandemia, percebi a realização de muitos eventos que discutiam o racismo, as legislações, os movimentos sociais, culturas, etc. Diante disso, percebe-se que esses momentos produzem muitas vozes, forças e também a própria escrita, que são essenciais para uma cultura antirracista.” (Márcia Lopes Vieira, IFTM Campus Uberlândia).

"[...] Em um momento que vivemos o ‘universo das lives’, que traz muitas coisas boas, mas também traz a questão da ação/pensamento ‘on time’, o curso propicia a escritura desde nossa experiência e singularidade no acesso a leitura. Neste formato predominantemente assíncrono, abre-se a possibilidade da reflexão pela escrita, com uma outra relação com a temporalidade, priorizando a forma como somos afetados e podemos afetar sobre uma questão que aflige a sociedade em seu âmago. Uma interação que ressignifica a questão temporal, que é uma das marcas da colonialidade (‘time is money’). Afinal, o processo de racialização fundamenta a dominação colonial.” (Danilo Seithi Kato, Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM).

“Com a leitura da obra Memórias da Plantação, percebemos que o racismo é um sistema de dominação que apresenta múltiplas e complexas dimensões, que é caracterizado por padrões de pensamento e comportamento e que, ao mesmo tempo, gera seus próprios padrões.” (Patrícia Paes Leme, IFTM Campus Ituiutaba).

“Considerando as provocações propostas sobre o texto de Kilomba, podemos perceber que há uma forma estruturada de opressão e manutenção das estruturas coloniais e patriarcais. Kilomba nos alerta que a linguagem, que é a forma com a qual nos expressamos, carrega em si a expressão de um pensamento machista, patrimonialista e racista. Em nosso idioma, vários termos que em outras linguagens são neutros, são trazidos para o masculino, traduzindo esse sexismo nas relações e outros termos que são usados para referenciar a negritude, simbolizam a desumanização da nossa raça. Ainda, na mesma cognição, há a estruturação do silenciamento da nossa voz como indivíduos culturais, geradores de conhecimento e vivência, buscando alçar a branquitude como o ideal a ser seguido. Da mesma forma como a história é contada pelo ponto de vista do vencedor (conquistador/opressor), a língua que hoje falamos, faz parte do apagamento de nossa ancestralidade.” (Luiz Cláudio Silva, Universidade Federal de Uberlândia - UFU)

"A escrita subjetiva nos coloca como produtores de nossas próprias histórias, alçando-nos ao lugar de autoras/es. Podemos nos reinventar, re-criar as narrativas negativas e objetificantes e nos concebermos de forma positiva e, assim, romper com as visões racistas que procuram nos definir de modo limitado e condicionado. Essa escrita subjetiva se baseia na visão de que a história pode ser recriada, modificada ou transformada, o que nos faz superar a existência objetificante, o poder da branquitude dominante de nos descrever e definir. Como Grada Kilomba afirma, podemos nos entender e ser quem somos.” (Lauana Araújo Silva, Universidade Federal de Uberlândia - UFU)

“A reflexão acerca do epistemicídio como meio de afirmar a dominação e a objetificação do ‘outro’, despindo-lhe de identidade e agência é fundamental. As perguntas ‘quem produz o conhecimento?’, ‘para quem se produz conhecimento?’ e ‘para quê se produz o conhecimento?’ nos levam a pensar sobre o fato de que a própria linguagem não é um instrumento neutro e despido de valores. Como Foucault colocava, as relações de poder permeiam todos os aspectos da vida social. A visibilidade ou invisibilidade social, a normalidade ou anormalidade, e a própria identificação como sujeito ou objeto dependem destas relações. O poder de se autodefinir e autodeterminar, portanto, resulta de uma posição hierárquica na sociedade. Daí o imperativo de se criar uma nova linguagem e uma nova identidade emancipada destas tradicionalmente estabelecidas pelo sistema patriarcal racista e capitalista, capaz de posicionar e afirmar politicamente os grupos oprimidos.” (Joana El-Jaick Andrade, IFTM Campus Uberlândia)

"Bora todo mundo evitar essas palavras racistas, homofóbicas e sexistas? Bora ‘criar palavras’ e usar expressões positivas para nos referir às pessoas pretas, às mulheres, às pessoas LGBTTQIA+? Bora usar sim ‘todas, todos e todes’, afrontando o sexismo da nossa língua? Eu acredito muito que as mudanças nas estruturas cotidianas têm capacidade para mudar toda uma estrutura social.”  (Raquel Almeida, IFTM Campus Uberlândia)

"[...] a forma com que a Grada se constituiu enquanto pensadora contemporânea fortemente consciente dos processos históricos, materiais e subjetivos pelos quais diferentes sociedades de origem africana foram violentadas nos processos de colonização/exploração. Meu olhar para a obra da Grada talvez contribua no sentido de destacar a importância da sua formação enquanto artista multidisciplinar psicanalista. É fundamental perceber que, como a partir desses lugares, ela vai construindo no seu potente discurso imagens, símbolos, mapas e sensações que saltam do texto enquanto ajuntamento de letras e palavras e se tornam capazes de nos atravessar inclusive pela via da catarse.” (Dickson Duarte Pires, IFTM Campus Uberlândia Centro).

Talita ficou muito entusiasmada com as repercussões e participações no 1º fórum do projeto “Escurecendo o Pensamento”, que possibilitaram trocas ricas e aprendizado enriquecedor. “O fórum mostrou-se como um lugar de construção coletiva e democrática do saber”, compartilhou a coordenadora.

O próximo fórum de discussão ocorre no dia 30 de abril e continua com estudos do livro Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano, de Grada Kilomba (Capítulo 1 - A Máscara: colonialismo, Memória, Trauma e Descolonização; Capítulo 2 – Quem pode falar? Falando no Centro, Descolonizando o Conhecimento; e Capítulo 3 – Dizendo o Indizível: Definindo o Racismo).

Saiba mais sobre o projeto de Extensão do IFTM “Escurecendo o pensamento”: https://iftm.edu.br/noticias/index.php?id=10954 ou enviando e-mail para neabi.udi@iftm.edu.br.



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