13 de maio

Campus Uberlândia Centro realiza ações de reflexão sobre o 13 de maio e valorização de escritoras negras

Atividades envolveram ação do Neabi, exibição de filme, música e mural produzido por projeto de extensão que incentiva leitura de escritoras
Publicado em 14/05/2026 11:47 Atualizado em 14/05/2026 14:48
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Estudantes observam mural produzido em ação de reflexão sobre o 13 de maio, data da abolição da escravatura no Brasil
Estudantes observam mural produzido em ação de reflexão sobre o 13 de maio, data da abolição da escravatura no Brasil
Crédito: Divulgação

O Campus Uberlândia Centro, do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), realizou, no dia 13 de maio, ações voltadas à reflexão crítica sobre a abolição da escravatura no Brasil e à valorização da cultura, da história e da produção intelectual da população negra. As atividades envolveram o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi), coordenado pelo professor Fabrício Gomes Peixoto, e o projeto de extensão “Incentivo à leitura de escritoras negras na literatura contemporânea”, coordenado pela professora Gyzely Suely Lima.

A programação integrou a Quarta-feira Negra, ação mensal promovida pelo Neabi, e incluiu momentos de sensibilização durante o intervalo da manhã, com músicas de artistas negros, além da exibição do filme Besouro no período da tarde. A proposta foi provocar a comunidade acadêmica a refletir sobre os sentidos históricos do 13 de maio, data marcada pela assinatura da Lei Áurea em 1888, que aboliu a escravidão, e sobre a permanência das desigualdades raciais no país.

Outra ação realizada no campus foi a construção de um mural nos corredores da unidade. A atividade foi desenvolvida no âmbito do projeto de extensão coordenado pela professora Gyzely e buscou articular o debate sobre a abolição com a valorização de escritoras negras na literatura contemporânea.

Ação do Neabi amplia debate sobre racismo e memória histórica

De acordo com a estudante Eloah Pedrosa de Jesus, do 3º ano do curso Técnico em Comércio Integrado ao Ensino Médio e integrante do Neabi, a edição de maio da Quarta-feira Negra foi pensada para ocorrer no dia 13 justamente pela importância simbólica da data.

“Foi um evento pensado pra acontecer no dia 13 de maio justamente pra provocar essa reflexão sobre a falsa ideia do que a abolição significou para a população negra do Brasil. A escravidão acabou oficialmente, mas as desigualdades e o racismo estrutural continuam presentes até hoje, e trazer esse debate no IF é muito importante”, destacou.

No período da manhã, a ação teve um momento de descontração, com músicas de pessoas negras durante o intervalo. À tarde, foi exibido o filme Besouro, obra que aborda aspectos da cultura afro-brasileira e o silenciamento enfrentado pela população negra mesmo após o fim formal da escravidão.

Para o professor Fabrício Gomes Peixoto, coordenador do Neabi, a atividade reforçou o papel da educação na formação crítica e no protagonismo estudantil. Segundo ele, a ação teve relevância por ter sido pensada a partir das vivências e inquietações dos próprios estudantes.

“Acredito que a educação só faz sentido quando a gente consegue despertar no estudante esse desejo de protagonizar a própria vida. Eventos como esse, organizados pelos estudantes, pensados por eles a partir das suas próprias vivências, das suas próprias dores e das coisas que eles mesmos querem discutir, mudam tudo. Esse evento foi uma atividade pensada pelo próprio coletivo, que percebeu a necessidade de discutir essas temáticas, sobretudo em um dia como o 13 de maio”, destacou.

Fabrício também ressaltou a participação dos estudantes durante a exibição do filme Besouro. “A gente não esperava uma participação tão grande. Fizemos o convite e, de repente, o auditório estava lotado de alunos para assistir a um filme sobre um protagonista negro, pensar essas questões e, depois do filme, discutir tudo isso. Foi um momento muito rico”, afirmou.

Mural propõe leitura crítica do 13 de maio

O mural produzido nos corredores do campus propôs uma reflexão sobre a abolição da escravatura a partir de uma perspectiva crítica. A ação abordou a participação dos movimentos abolicionistas negros e questionou a ideia de que a abolição teria sido um ato concedido pela monarquia.

Segundo a professora Gyzely Suely Lima, a proposta foi ocupar o espaço da comunidade interna com uma provocação sobre o significado da data. “Foi feito um levantamento histórico de uma perspectiva mais crítica sobre a ação da Princesa Isabel, por isso que ela aparece no mural também sendo criticada com essa frase de efeito, de que ‘não foi ela, foi o povo negro’ em relação a todos os movimentos abolicionistas que já vinham acontecendo antecedendo essa assinatura da Lei Áurea”, explicou.

A professora também destacou que a atividade contribui para discutir as permanências históricas da exploração e do racismo no Brasil. “De fato, não foi uma abolição doada, não foi um presente que a monarquia naquele momento deu ao povo negro até então escravizado. E isso nos coloca a repensar os novos formatos de escravidão modernizados na nossa contemporaneidade”, afirmou.

A estudante Izabela Castro Oliveira, do 2º ano do curso Técnico em Desenvolvimento de Sistemas Integrado ao Ensino Médio, participou da construção do mural e ressaltou o impacto formativo da atividade. “Fazer esse mural foi uma experiência diferente e interessante, tanto pelo processo criativo quanto pela pesquisa envolvida. Ao longo do desenvolvimento, pudemos compreender melhor a importância histórica do 13 de maio e refletir sobre como a chamada ‘abolição’ não representou, de fato, liberdade, dignidade ou reparação para a população negra”, relatou.

Também participante do projeto, a estudante Sthefane Kauane Cardoso Ramos, do 2º ano de Desenvolvimento de Sistemas, destacou a relação entre representatividade, ancestralidade e formação. “Tem sido uma experiência incrível. Fico muito feliz de estar num lugar onde as mulheres são realmente exaltadas e valorizadas. Como mulher negra, sinto que estar ali é uma forma de honrar as minhas ancestrais”, afirmou.

Para Sthefane, o mural também representou um desafio coletivo. “Ver o mural pronto me deu muita vontade de crescer com o projeto e fazer com que a nossa mensagem chegue em cada vez mais pessoas. No fim das contas, o que eu mais quero é que outras mulheres olhem pra tudo isso que a gente tá construindo e se sintam ouvidas e representadas de verdade”, completou.

Projeto incentiva leitura de escritoras negras

O mural faz parte das ações do projeto de extensão “Incentivo à leitura de escritoras negras na literatura contemporânea”, que está em sua segunda edição. A iniciativa é coordenada pela professora Gyzely Suely Lima e conta também com a professora Ana Cláudia Teodoro como orientadora, além das estudantes bolsistas Izabela Castro Oliveira e Sthefane Kauane Cardoso Ramos.

De acordo com Gyzely, a proposta do projeto é divulgar um levantamento de escritoras negras na literatura, com foco, neste momento, na produção latino-americana. A iniciativa também dialoga com referências de outros contextos, como a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, e com autoras fundamentais para o pensamento crítico brasileiro, como Lélia Gonzalez.

“O objetivo desse projeto de extensão consiste em divulgar nosso levantamento de escritoras negras na literatura. Nesse momento, o enfoque vai ser na literatura latino-americana, mas perpassa a referência de escritoras negras da Nigéria, como a Chimamanda Adichie, e perpassa algum referencial teórico mais específico, como a Lélia Gonzalez”, explicou a professora.

Atualmente, o projeto está em fase de levantamento teórico e discussão. Nesse contexto, a produção do mural funcionou como uma ação articulada às atividades do Neabi e como forma de inserir, no cotidiano do campus, debates sobre literatura, memória, racismo, gênero e representatividade.

Iniciativa foi contemplada em primeiro lugar no edital IFTM por Elas

O projeto coordenado pela professora Gyzely Suely Lima foi contemplado em primeiro lugar no Edital nº 4/2026/Proext-Rei, do Programa de Apoio a Projetos de Extensão do IFTM – IFTM por Elas. A iniciativa recebeu pontuação total de 82,25 e teve aprovado o valor de R$ 3 mil para bolsas.

O edital, vinculado à Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Esporte (Proext), tem como finalidade apoiar projetos de extensão voltados à prevenção, ao enfrentamento e ao combate à violência contra as mulheres, além de fomentar ações educativas, culturais, formativas e de articulação comunitária.

Além do projeto “Incentivo à leitura de escritoras negras na literatura contemporânea”, o Campus Uberlândia Centro também teve contemplada a proposta “Mulheres no Universo Geek: autoria feminina de jogos digitais e Histórias em Quadrinhos”, coordenada pela professora Lísia Moreira Cruz. O projeto foi aprovado para contemplação parcial, com recurso aprovado de R$ 2.250,00.

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